Passado a ferro

Passado a ferro

PASSADO A FERRO
Representações do feminino na mídia impressa
por RAQUEL PINHEIRO CINTRA
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O livro Passado a Ferro apresenta uma reflexão sobre a representação da imagem da
mulher em revistas de décadas passadas e de como essa imagem ainda é
representada no tempo atual, criado através de fragmentos iconográficos e textuais
retirados de revistas das décadas de 30, 40, 50 e 60, junto `as frases que encontramos
nas capas de revistas dedicadas ao público feminina hoje em dia, organizados e
retrabalhados de forma a gerar novos sentidos.

Este projeto visa discutir a possibilidade da produção do gênero livro de artista na cena
contemporânea, enfatizando seu processo criativo no que se refere a conjunção e
interação de várias mídias. Nesse sentido, Paiva (2001) ressalta que o livro de artista
possibilita uma fusão entre pintura, fotografia, literatura, colagem, desenho, montagem,
impressão, dentre outros sistemas semióticos, valorizando assim a manipulação
experimental das linguagens textuais, visuais e táteis.

No campo da recepção, o livro de artista expande o acesso à arte pela criação do
interesse de leitura lúdica, onde o leitor passa decisivamente a ser visto como o
agente, seja imaginando vida onde há material, seja encontrando-se com a
subjetividade da poesia visual das páginas.

Vale lembrar o interessante jogo entre palavra/imagem estabelecido no âmbito da
produção discutida. Livro de artista é uma categoria artística e um produto que inclui
várias categorias: livro objeto, livro brinquedo, livro ilustrado, livro de arte, livro-poema,
livro-obra, dentre outras. No livro de artista, palavra e imagem se aproximam pela
lógica do suplemento, ou seja, as possíveis significações geradas pelo livro se dão a
partir de uma trama verbo/visual, já que não há hierarquias entre os tipos de signos. Ou
seja, a imagem não se apresenta como mera ilustração do texto verbal, nem tampouco
o texto como legenda para a imagem. Ou seja, a relação entre palavra e imagem é
dialógica e acionada também a partir do repertório do leitor.

A temática abordada no Passado a Ferro surge da necessidade de levantar uma
questão cotidiana, qual seja, a da condição da mulher na sociedade machista em que
vivemos e da violência por elas sofrida, tendo em vista que a cada dois minutos quatro
mulheres sofrem violência no Brasil e em sua maioria acontece em sua esfera
doméstica. Em dados coletados na pesquisa Percepções sobre a Violência Doméstica
Contra a Mulher no Brasil, do Instituto Avon/Ipsos, relatam que 50% das mulheres
acreditam que o machismo é o grande causador das agressões. Em outra pesquisa,
apresentada pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, em 2012, mostra
que em 68,8% dos atendimentos a mulheres vítimas de violência, a agressão acontece
na residência da vítima e em pouco menos da metade dos casos, o agressor é o
parceiro ou ex-parceiro da mulher, e ainda mostra que, entre vários mecanismos pela
qual essa tolerância atua em nosso meio o que prepondera é culpabilização da vítima
como justificativa da violência. Violência contra mulher não se dá apenas no âmbito da
agressão física, mas também na agressão psicológica, sexual, em formas simbólicas
como representações midiáticas que reforçam um lugar subalterno para a mulher.

Tomado em um primeiro plano como expressão estético, o livro de artista também pode
acolher uma leitura crítica na escolha de sua temática. No caso de uma discussão
sobre gênero, aqui circunscrito à condição da mulher em sua representação midiática,
vale lembrar o conceito de micropolítica apresentado por Katia Canton (2009). A autora
apresenta um panorama político atual em que artistas e pensadores substituem a
noção de Política, com “P” maiúsculo pelas micropolíticas, a saber, uma atitude focada
em questões mais específicas e cotidianas, como o gênero, a fome, a impunidade, o
direito à educação e à habitação, à ecologia, enfim, tudo aquilo que nos diz respeito e
nos faz viver em sociedade.

Explorando o diálogo entre imagens e palavras, Passado a ferro é construído através
da ressignificação dos fragmentos retirados de revistas como a “Alterosa”, “Cruzeiro”,
entre outras, organizadas junto à interferências gráficas, agregando ainda frases das
capas de revistas cujo também foi explorado a iconicidade da letra, em que tudo isso
ocasionasse uma ressignificação dessas imagens e textos, gerando assim novos
sentidos. Pensado como um projeto de livros de artista, Passado a ferro transforma
cada página em um elemento individualizado. O que se vê e o que se lê se relacionam
a todo o momento.

“Intermidialidade é o processo da conjunção e interação de várias mídias.
Quando se fala em mídias, devemos pensar não somente em cinema, foto-
grafia, rádio, jornal e TV, mas também em literatura e artes. elas são mídias,
pois veiculam informações e reúnem todo um aparato social e cultural à sua
volta. essas mídias se contaminam e acabam gerando novos discursos, que vão
além da capacidade expressiva de um só meio.” (VENEROSO, 2012, p. 85)

No Livre de Peintre, antecessor do livro de artista, os poemas eram traduzidos
visualmente, a imagem funcionava como uma ilustração do texto, já no livro de artista
não existe hierarquia entre texto e imagem, a obra costuma subverter e ultrapassar o
formato tradicional do livro, podendo ser, inclusive, um objeto escultórico. No Passado
a ferro a fusão entre diferentes mídias, como recortes de fotografias e colagem, pintura,
texto e desenho dá ao livro de artista a característica de obra híbrida e intermidiática.
Isso porque, como aponta Paulo Silveira: “o livro de artista stricto sensu é uma obra
tipicamente contemporânea, inserido no contexto da intermídia” (2001, p.37)

Geralmente o livro de artista é uma obra original e única, muitas vezes impossível de
ser reproduzida. Clive Phillpot, um crítico de arte que possuiu a maior coleção de livros
de artistas do mundo, na biblioteca do Moma em Nova Iorque, faz elogios às edições
ilimitadas acessíveis não apenas em galerias, mas também em livraria, quebrando a
aurea de objeto precioso. Por acreditar também que toda obra é deve ser acessível, o
livro Passado a ferro foi concebido com o intuito de ser uma obra de simples
reprodutibilidade que possa ter um significativo alcance.

 É interessante abordar que, a despeito do tom crítico do livro, houve uma preocupação
em não tratar a temática da representação da mulher na mídia de maneira panfletária.
Desse modo, optou-se pelo humor e ironia como recursos de linguagem que garantem
a reflexão nas entrelinhas, ou seja, de modo obtuso e não óbvio. É necessário, pois,
um leitor crítico para capturar, além do trabalho plástico, também o tom crítico da obra.
Um exemplo do recurso irônico foi o uso de frases chamadas da Revista “Nova”, uma
das mais vendidas no Brasil. A publicação possui uma tiragem de quase trezentas mil
cópias mensais, das quais 92% são consumidas pelo feminino. Essa revista se diz ser
a “Bíblia da mulher”, com seu conteúdo de beleza, sexo, moda, relacionamentos que,
na realidade, mostram manuais e instruções de como devem ser, devem agir, devem
viver. Um discurso ditatorial de guias com dietas milagrosas e “sexo selvagem”
reforçando a imagem da mulher objeto. Em Passado a ferro tais frases,
suplementadas pelas imagens criadas para o livro, geram um desconforto ao apontar o
caráter perverso desse discurso.

O discurso de Nova parece totalmente aderente ao discurso de revistas de décadas
passadas. Ao colocar em diálogo os fragmentos imagéticos coletados nas revistas,
principalmente de publicidades dos anos 30 aos 60 notamos que a mulher sempre foi
pressionada a viver conforme um padrão instituído pela sociedade. Até a década de 60,
elas deveriam ser apenas dona-de-casa e viver em função do marido e filhos. Esse
padrão de comportamento deveria ser seu ideal de felicidade e seus desejos deveriam
ser focados em consumir um novo eletrodoméstico, uma batedeira elétrica, maquina de
lavar roupa ou liquidificador novo. Poderia ser um conto de fadas para todo mundo,
menos para ela, pois a anulação da personalidade feminina gerava frustração,
depressão e outros problemas psicológicos.

A metodologia utilizada na produção do livro se iniciou com vasta pesquisa iconográfica
em revista e publicações de décadas passadas para um banco de imagens a ser
utilizados como ponto de partida para conteúdo do livro. A partir daí entramos no
processo de experimentação em imagens, utilizando de variadas técnicas e
procedimentos, como: colagens, apagamento, desgaste, agrupamento, desenho,

interferências gráficas, pintura, e em meio a esses processos pesquisamos na Revista
Nova, quais frases seriam ideais para dialogarem de maneira a agregar sentidos às
imagens. Após produção de conteúdo partimos para uma etapa de digitalização e
definição de formato do livro seguindo então da impressão e “encadernação” da obra.

Cabe ressaltar ainda que o livro de artista oferece uma infinidade de leituras possíveis,
dando ao leitor a possibilidade de ser o autor e de fazer a leitura que melhor lhe
interessar.

 

CONCLUSÃO

A arte contemporânea é repleta de procedimentos híbridos.
Deste modo, o processo de criação do Passado a Ferro se fez válido por investigar
linguagens para a produção do livro de artista, através do diálogo entre imagem,
palavra e outros e criando também uma reflexao sobre temática do feminino.

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